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Em Alto Paraíso (GO), moradores se dividem entre rotina e rituais para enfrentar o dia em que o mundo não acabou

 O colombiano Julio Álvares veio para Alto Paraíso, em Goiás, com a expectativa de sobreviver ao fim do mundo; na foto, os chalés que ele construiu para se refugiar
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colombiano Julio Álvares veio para Alto Paraíso, em Goiás, com a
expectativa de sobreviver ao fim do mundo; na foto, os chalés que ele
construiu para se refugiar

Apesar das previsões místicas sobre o fim do mundo, a rotina da cidade de Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, a 410 quilômetros de Goiânia, está tranquila. A movimentação pelas ruas é calma, o comércio e a prestação de serviços funcionam normalmente.
Mas mesmo diante de uma pacata sexta-feira (21), o engenheiro agrônomo aposentado Edison Pereira Lemos, 68, afirma que mudanças estão ocorrendo no planeta, que sai da era de Peixes para a de Aquário.
“O tema fim de mundo é alegórico, mas essa transição ocorre a cada 5.125 anos e promove alterações na verticalização do eixo da Terra, que pode gerar panes. Essa transição deve durar até 2018, isso é o que fala as teorias”, diz Lemos, que se preparou para enfrentar três dias na escuridão.
Em sua casa, há estoques de 25 garrafas pets com água potável e outras 40 para serem utilizadas na limpeza e banho. Edison, que nasceu no Rio de Janeiro e se mudou há dez anos para Alto Paraíso, também se preocupou em comprar frutas secas, sementes de abóbora e de maracujá e shakes, caso haja imprevistos.
“A gente não sabe como serão esses dias”, diz o engenheiro agronômo que também adquiriu um lampião e chuveiro manual.
Na zona rural da cidade, o paulista Augusto Vinholis diz acreditar nas teorias maias e prevê que haverá três dias na escuridão. Para enfrentar o período, ele se trancou em sua propriedade por volta das 11h com familiares.
Num ritmo diferente, João Rubens Dahmer, 31, manteve as obras da pousada Espaço Naves Luna Zen. Pedreiros dão continuidade aos trabalhos para levantar as sete “espaços-nave”, que compõem o local.
A expectativa de Dahmer, que nasceu no Rio Grande do Sul e está em Alto Paraíso há um ano e meio, é de que os sete “espaços-nave”, quiosques para hospedar turistas, sejam concluídas até o Carnaval.
Até agora, apenas três estão prontos. Uma delas serve de moradia para o colombiano Julio Álvarez, 54, que trabalha como caseiro do local e deixou seu país em busca de segurança para passar os dias que antecederiam o fim do mundo.
Além do quiosque, que seria à prova de terremotos, ele comprou um colchão inflável caso seja necessário flutuar sobre dilúvios. Para Dahmer, que está recepcionando familiares que vieram do Rio Grande do Sul conhecer a cidade, há exageros.
“Hoje, vamos fazer um churrasco e depois vamos conhecer as belezas naturais da cidade. Aqui tem muitas pessoas excêntricas.”
A movimentação na cidade se tornou oportunidades de negócios também para a poetisa Londina Maria do Carmo, que vende livros para os turistas. Com exemplares do livro “Lembrança de um passado distante”, ela diz que não espera o fim do mundo, mas apenas que o dia acabe com mais rendimentos financeiros.

Imóveis

O corretor de imóveis e radialista Nilton Kalunga afirma que o mercado imobiliário da cidade teve um aquecimento progressivo desde o início do ano. Segundo ele, os valores de imóveis e terrenos tiveram uma alta de 100%.
Kalunga conta que o preço do metro quadrado na cidade saiu de R$ 30 no começo do ano para R$ 60, em dezembro. Ele avalia que neste segundo fim do mundo aqueceu as vendas, que foram ampliadas em até 50%.
“Esse crescimento é uma tendência observada no município ao longo dos anos. Claro que as características místicas atraem compradores. Neste ano, houve um impacto, mas não tão forte como em 1999, quando cheguei a vender 70 lotes para um mesmo grupo de amigos.”

Comemorações oficiais

As especulações sobre o fim do mundo geraram euforia na rede hoteleira de Alto Paraíso, que previa lotação máxima para o final de semana. Até o início da tarde desta sexta-feira, 21,60% dos leitos estavam ocupados, segundo informações da assessoria de imprensa da prefeitura.
Para o prefeito Alán Barbosa, o período de festas natalinas pode ter reduzido a procura pela cidade, já que as pessoas preferem ficar mais próximas dos familiares. Mas garante que as teorias maias de que o mundo se acabaria incrementaram o turismo na cidade, o que deve gerar aumento de até 40% no faturamento em relação ao mesmo período do ano passado.
Barbosa diz que esta mobilização impulsionou uma série de comemorações oficiais no município, que se iniciaram desde o dia 12 de dezembro, quando a cidade completou 59 anos. Batizado de “Todo Mundo no Paraíso”, o calendário de eventos prevê shows gratuitos na praça da rodoviária, a partir das 20 horas com artistas locais.
No sábado (22), a convidada é a vencedora do The Voice Brasil, Ellen Oléria. Até a semana passada, o show anunciado seria de Paulinho Moska, que não se confirmou.
Para garantir a segurança e atendimento aos turistas, a prefeitura reforçou as equipes da PM (Polícia Militar), que teve o efetivo duplicado.
Alto Paraíso conta com 15 policiais e outros 15 foram encaminhados para atuar na segurança no período de maior visitação. A Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros também ampliaram o número de profissionais no município.

Quartzo

A procura por Alto Paraíso se justifica pelo misticismo que confere à cidade o título de ser um local livre de tragédias. O município, que é cortado pelo paralelo 14, que atravessa Machu Picchu, no Peru, está sobre uma placa de quartzo de 4.000 metros quadrados e a 1.300 metros acima do nível do mar.
Segundo o prefeito Alán Barbosa, essas características naturais, aliadas à espiritualidade dos moradores e visitantes da cidade, têm reforçado o turismo local.
Ele diz que na cidade há grupos místicos, mas que a grande maioria não tem essa visão. “O nosso trunfo é a diversidade, aqui temos pessoas de culturas e religiões diferentes e conseguimos viver em harmonia. Aqui cabe até o fim do mundo”.
Fonte: UOL

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