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Sexo santo?

Thiago Lima Barros

Desde o seu início, a cristandade se defrontou com o problema da
santificação. E atribuir a característica de “problema” a uma temática
tão cara ao ideal cristão não é para menos: embora o Deus Triúno tenha
estabelecido, há tempos imemoriais, um padrão próprio de santidade,
baseado na vivência interior e na sublimidade da interação com o
sobrenatural, o ser humano sempre tendeu ao diametralmente oposto:
transferiu a santidade para o âmbito externo, corporal, e banalizou a
experiência com o sagrado, dando-lhe uma conotação descabidamente
personalizada.
No campo da afetividade, então, é que a coisa fica braba. Da conotação
especial dada por Deus à relação homem/mulher, o homo sapiens tratou de
avacalhar: em nome de uma suposta santidade, pecaminizou o contato
físico – sexo no casamento incluído – e entronizou a ascese e o celibato
como ideais de pureza cristã. Porém, como a auto-repressão é
nitroglicerina pura para a frágil alma humana, a ausência de uma
necessidade intrínseca causa uma explosão pecaminosa. Ô circulozinho
mardito!
Ao longo dos séculos, outro efeito colateral dessa repressão se fez
sentir no campo da hamartiologia. É notório que nesse período surgiram
entre nós, que somos frutos da Reforma, pessoas corruptoras da graça e
da liberdade em Cristo, que arrogaram para si um papel nitidamente
romanista: o de inquisidores. Verdadeiros Torquemadas, eles corromperam
não só famílias, mas igrejas inteiras, ensinando a mesma heresia romana
de que há hierarquia entre pecados. Não satisfeitos com isso, trataram
de encastelar a imoralidade sexual no mesmo patamar da blasfêmia contra o
Espírito Santo. Pronto: passamos a ter dois pecados imperdoáveis! Sim,
pois embora não confessem explicitamente tal heresia, os verdugos
mencionados falam e agem como se assim fosse. Negam o caráter de Deus.
Distorcem as Escrituras. Lançam mão de uma eisegese (ou seria exejegue?)
conveniente à sua crença pagã.
Entendimento bíblico
No entanto, quando nos defrontamos com a busca pela santidade, conforme a
vontade de Deus, outro panorama, bem menos peçonhento e obtuso, se
descortina diante de nós. J. I. Packer nos dá um excelente ponto de
partida:
“Em primeiro lugar, consideremos a palavra em si. Santidade é um
substantivo que pertence ao adjetivo santo e ao verbo santificar, que
basicamente significa tornar santo. Santo, tanto no hebraico, como no
grego, significa separado, consagrado e recriado para Deus. Quando
aplicada às pessoas, como ‘santos de Deus’ ou ‘santos’, a palavra
[santidade] implica em devoção e assimilação: devoção, no sentido de
viver uma vida de serviço para Deus; assimilação, no sentido de imitar,
conformar-se a e tornar-se como o Deus a quem se serve. Como cristãos, a
implicação é que precisamos assumir a lei moral de Deus como a nossa
regra e o Filho encarnado de Deus como o nosso modelo. É aqui que a
nossa análise de santidade deve começar”. (J. I. Packer, Redescobrindo a Santidade, Cultura Cristã, p. 16)
É claro que a depravação total do ser humano deve ser levada em
consideração quando falamos sobre santidade. Embora não seja calvinista,
tenho para mim que todo e qualquer esforço que façamos para nos
separarmos do mundo esbarrará em nossa natureza falível. Todos pecaram, e
carecem da glória de Deus. Mas não é porque pecamos que meramente nos
acomodaremos, à mercê de nossas próprias debilidades. A misericórdia de
Deus nos constrange e socorre. Se pecarmos, temos um advogado junto ao
Pai, Jesus Cristo, o Justo.
A degeneração platônica
Ora, se a santidade bíblica leva a existência do pecado e do perdão
divino em consideração, porque diversos setores da igreja a concebem
como um ideal praticamente inatingível, mormente no campo sexual? A
resposta está na influência da filosofia platônica no cristianismo dos
primeiros séculos.
Os neoplatônicos repudiavam tudo aquilo que significasse o
aprisionamento do corpo e dos sentidos a toda e qualquer forma de
condicionamento social e mental, concebendo o amor como coisa
idealizada, sem contato físico. Não foram poucos os líderes cristãos de
nomeada, influenciados por esse tipo de pensamento gentio, com destaque
para Santo Agostinho, que, à revelia do preceituado na Bíblia,
defenderam uma práxis cristã expurgada do sexo, confundido com o pecado
original. Assim, a sexualidade seria o indicador da queda do homem, e
mesmo que os casais copulassem apenas com fins de procriação, estariam
fazendo algo necessário, mas humilhante.
Dessa forma, Agostinho e outros introduziram entre os cristãos uma nódoa
de consciência culpada quando faziam sexo ou tinham sentimentos e
impulsos prazerosos, o que arruinou a vida de inúmeros casais, para os
quais o sexo passou a ser associado a um “presente do demônio”. E mais: A
presença do impulso sexual nos seres humanos seria a marca da corrupção
da nossa natureza. A maldade humana seria resultante desse tumor
sensual e dissoluto existente em todos nós.
Basta ler Gênesis para constatar a falsidade da construção agostiniana. O
pecado original foi o da desobediência. Se há uma “marca” no que
concerne à rebelião humana contra Deus, essa é a da contraposição às
prescrições divinas, e não os impulsos sexuais. Estes surgem
naturalmente na adolescência, e são dados por Deus para potencializar e
reafirmar o vínculo matrimonial. Se externalizados fora do contexto
conjugal, aí sim, se tornam pecado, mas perdoável por Deus. Quando
contrasteada com o pensamento paulino, a tese do bispo de Hipona é
enterrada de vez. Muito embora fosse celibatário por opção, Paulo jamais
buscou impor de cima para baixo o ascetismo à igreja nascente. Talvez
apenas tenha compreendido, como nenhum outro, que a vida de solteiro é
mais vantajosa quando analisada sob alguns aspectos. Todavia, o
magistério paulino apresenta alternativas rigorosamente iguais em sua
validade: a comunidade não é obrigada a ele, mas o mesmo não deixa de
ser uma recomendação para que aqueles que são atribulados na carne não
venham a tropeçar por meio da incontinência. Além do mais, o Apóstolo
das Gentes faz uma impugnação pesada contra aqueles que proibiam o
casamento, dando a ele, e a tudo o que lhe dizia respeito, inclusive o
sexo, o estatuto incontestável de instituição divina.
Nossa prática atual e situação dos jovens
Enquanto eu e minha esposa Danny analisávamos os dados da pesquisa O Crente e o Sexo do BEPEC,
vimos patente o resultado do desvirtuamento do conceito de santidade
aplicado à relação entre os dois gêneros. Uma igreja hipócrita foi
desnudada: enquanto reverbera contra a imoralidade sexual, não combate
nem esse, nem os demais pecados. Censura o mundo, mas se comporta pior
do que ele. E essa hipocrisia avulta ainda mais quando nos recordamos
(não faz muito tempo, tenho só 29 anos!) da atitude de alguns preletores
adultos em eventos para jovens, não apenas em minha antiga denominação,
mas em outras Brasil (e mundo) afora: um sentimento patente de
superioridade em questões morais. Para esses senhores, os jovens são
licenciosos incorrigíveis, bestas fornicadoras que devem ser contidas a
todo custo na base do “paustoreio”.

 

Cansei de ouvir esse tipo de pregação mentirosa, mas tambem cansei de
tomar conhecimento, a posteriori, que alguns dos ditos pregadores haviam
sido pegos com a boca na botija, no mais das vezes em adultério. Mesmo
assim, seus sucessores continuam com o mesmo discurso falacioso. E la nave va...
Fora o extremo oposto, que é o incentivo à lascívia por parte de
líderes inescrupulosos, normalmente de igrejas neopentecas que se
pretendem “moderninhas”.

Mas nem tudo está perdido. Quando analisamos os resultados entre os
solteiros maiores de 16 anos, especialmente o subgrupo dos jovens entre
16 e 24 anos, que representa 62,02% do universo pesquisado (a qual eu
chamo, a partir de agora, de faixa majoritária), ainda vemos um nível de
licenciosidade indesejado, mas numa trajetória declinante em relação
aos resultados vexatórios apurados entre os casados, e mesmo entre os
solteiros acima de 24 anos.

Um exemplo é a questão da virgindade. Se compararmos as respostas da
faixa majoritária com as dos casados, percebemos que a maioria (59,75%)
se preserva para o matrimônio, seguindo o padrão bíblico, enquanto que
entre os casados, a lógica se inverte (56,07% brincaram de médico antes
de juntar os trapinhos). Se expurgarmos da faixa majoritária os
neopentecostais, o índice de fidelidade à Palavra nesse ponto sobe para
66,52%. O lado positivo essa situação avulta ainda mais quando
comparamos esses dados com estatísticas do Ministério da Saúde, onde se
percebe um índice alto (26,8%) de iniciação sexual precoce, antes dos 15
anos, na população brasileira.
Acima dos 24 anos, a coisa se complica, pois a inclusão dos 37,98% de
solteiros nessa faixa etária eleva a proporção de merendas antecipadas
para 66,13%.
Mais uma vez, um motivo de pesar é o desempenho dos pseudopentecostais. A
ênfase dessa corrente anticristã no antropocentrismo e no materialismo
hedonista tem um claro reflexo comportamental: a maioria dos jovens
dessas igrejas avançou o sinal. Mas justiça seja feita: os jovens
adeptos dessas igrejas se saem melhor se comparados, por exemplo, com o
índice de teratológico de sexo pré-marital encontrado entre os
neopentecas casados (76,99%).
A rejeição praticamente universal às práticas homossexuais é outro ponto
de convergência entre o standart sagrado e as respostas obtidas. 94,98%
do universo dos solteiros jamais manteve relação homossexual; 89,31%
sequer tem esse desejo; e 97,03% não mantém, quando da resposta ao
questionário, nenhum tipo de relacionamento dessa natureza.
Outra constatação que emerge da pesquisa é a falha das igrejas em
orientar os jovens: a maioria dos que se adiantaram (54,57%) tiveram sua
primeira vez depois de convertidos. E entre os que vieram de fora nessa
situação, 64,58% mantiveram-se no erro. Uma conclusão igualmente válida
é a de que os respondentes da faixa majoritária, quando fazem opção de
abstinência, o fazem por conta própria, numa decisão de foro íntimo,
justamente em face da falha eclesiástica em discipular os jovens no que
tange ao sexo.
A percepção do déficit de educação sexual no âmbito eclesiástico
prossegue. Tomando-se apenas a faixa majoritária como referência, temos
um índice alto de jovens que “ficam” (37,86%), prática essa que pode
induzir à infidelidade conjugal num futuro não muito distante. 66,52% se
masturbam. Mais de 20% dos casais de namorados têm vida sexual plena e
ativa (são casados na prática). E os hábitos e práticas licenciosos,
como pornografia, sexo virtual, relações com prostitutas, carícias mais
“pesadas”, são correntes para quase 70% da faixa majoritária, atingindo
índices duplicados (às vezes triplicados) em relação aos adultos.
Sim, não há desculpa para tais práticas: são pecaminosas, ou por serem
feitas fora do contexto matrimonial, ou por serem reprováveis para
solteiros e casados, indistintamente. Mas é compreensível que, numa fase
em que os hormônios inclinam a psique com mais força para a
sexualidade, somada ao desejo do espírito por ter a mente de Cristo,
para a busca pela abstinência da conjunção carnal, haja um empuxo
contrário em outras áreas sexuais.

E é aqui que os orientadores de jovens têm falhado, mesmo lidando com um
público que deseja ardentemente acertar, e acerta mais do que a geração
anterior, bem como percebe com mais agudeza a falha de caráter coletiva
da Igreja ao tratar desses assuntos.
A falha está justamente no ar de superioridade que demonstram. Porém,
conselhos moralistas, vomitados de cima para baixo, mais atrapalham do
que ajudam. É preciso mostrar aos jovens que o sexo é, sim, um presente
de Deus. Que o usufruto dessa dádiva pode se dar num contexto de
santificação de vida, desde que sejam respeitados os limites
estabelecidos para cada fase.

Por isso, um conselho aos discipuladores (sempre considerando as
honrosas exceções): abandonem a arrogância e a pose de sabichões. Embora
com mais experiência, vocês têm errado, e feio, ao pregarem uma coisa
que não vivem a quem busca santidade com mais instância do que vocês.
E, consciente de que chovo no molhado para a maioria (glória a Deus por
isso!), digo aos jovens, eu, jovem igual a eles: “aquele que coisava,
não coise mais”! Procure conservar-se a si mesmo puro antes do casório.
Mas se não conseguir, se tropeçar, não é o fim do mundo. Abandone o
pecado. Recomece! Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo
para nos perdoar os pecados e nos lavar de toda a (nossa) injustiça.
Thiago Lima Barros, tal qual Frederico
Evandro, é alagoano! E macho! Pronto! Mas também crê que uma santidade
sem hipocrisia no campo afetivo e sexual é fator primordial para o
exercício sadio da fé cristã.

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Comentário

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Um comentários

  1. Parabens pelo artigo…..

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