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O Homem Mais Perigoso do Ciberespaço

 Jacob Appelbaum no coletivo de hackers de Noisebridge, que ele fundou antes de o FBI começar a segui-lo

Jacob Appelbaum no coletivo de hackers de Noisebridge, que ele fundou antes de o FBI começar a segui-lo

Em 29 de julho, ao voltar de uma viagem para a Europa, Jacob Appelbaum,
um rapaz magro e despretensioso de 27 anos, usando uma camiseta preta
com o slogan “be the trouble you want to see in the world” [“seja o problema que você quer ver no mundo”],
foi detido na alfândega por um grupo de agentes federais. Em uma sala
de interrogações no aeroporto Newark Liberty, em Newark, foi questionado
sobre seu papel no WikiLeaks, o grupo denunciador que expôs os
relatórios de inteligência mais bem guardados do governo norte-americano
sobre a guerra no Afeganistão – e que, a cada dia, libera mais
documentos na rede. Os agentes fizeram cópias de seus recibos,
apreenderam três de seus celulares – ele tem mais de uma dúzia – e
confiscaram seu computador. Eles o informaram que estava sob vigilância
do governo, questionaram sobre o calhamaço de 91.000 documentos
militares confidenciais que o WikiLeaks havia divulgado na semana
anterior, um vazamento que Daniel Ellsberg, ativista da era do Vietnã,
chamou de “a maior divulgação não autorizada desde os Papéis do
Pentágono”. Exigiram saber onde Julian Assange, fundador do WikiLeaks,
estava se escondendo, pressionaram para saber sua opinião sobre as
guerras no Afeganistão e no Iraque. Appelbaum se recusou a responder.
Depois de três horas, finalmente foi liberado.

Foto: Cortesia de Jacob Appelbaum
Jacob Appelbaum com Julian Assange, fundador do Wikileaks, na Islândia
Jacob Appelbaum com Julian Assange, fundador do Wikileaks, na Islândia

Appelbaum é o único membro norte-americano conhecido do WikiLeaks e o
líder evangelista do programa de software que ajudou a possibilitar o
vazamento. De uma certa maneira, é uma versão bizarra de Mark
Zuckerberg: se a ambição do Facebook é “tornar o mundo mais aberto e
conectado”, Appelbaum vem dedicando a vida a lutar pelo anonimato e pela
privacidade. Um garoto de rua anarquista criado por um pai viciado em
heroína, abandonou a escola, aprendeu sozinho as minúcias do código e
desenvolveu uma paranoia saudável ao longo do caminho. “Não quero viver
em um mundo onde todos são observados o tempo inteiro”, diz. “Quero
ficar sozinho o máximo possível. Não quero que um rastro de dados conte
uma história que não é verdadeira.” Transferimos nossas informações mais
íntimas e pessoais – contas bancárias, e-mails, fotos, conversas por
telefone, históricos médicos – para redes digitais, confiando que está
tudo trancado em alguma cripta secreta, mas Appelbaum sabe que essas
informações não são seguras. Ele sabe porque consegue encontrá-las.

Demonstra isso quando o encontro, no segundo trimestre, duas semanas
antes de o WikiLeaks virar manchete no mundo inteiro ao divulgar um
vídeo mostrando soldados dos EUA matando civis no Iraque. Visito seu
duplex cavernoso em São Francisco. Os únicos móveis são um sofá preto,
uma poltrona preta e uma mesa baixa preta: uma máscara de Guy Fawkes
está pendurada em uma parede da cozinha. O chão está coberto de sacos
Ziploc com maços de dinheiro estrangeiro: pesos argentinos, francos
suíços, leis romenos, dinars iraquianos antigos com o rosto de Saddam
Hussein. O saco marcado “Zimbábue” contém uma única nota de $50 bilhões.
Fotos, a maioria delas tirada por Appelbaum, cobrem a parede sobre sua
mesa: garotas punk em poses sedutoras e um retrato do falecido pai, um
ator, vestido como um personagem.

Appelbaum me conta sobre um de seus feitos menos impressionantes em
hacking, um programa de software que inventou, chamado Blockfinder. Diz
que não foi especialmente difícil de gravar. Na verdade, a palavra que
usa para descrever a complexidade do programa é “trivial”, um adjetivo
cada vez menos usado que ele e seus amigos hackers empregam, como em
“Disparar o firewall chinês é trivial” ou “É trivial acessar qualquer
conta do Yahoo utilizando ataques de solicitação de senha”. Tudo o que o
Blockfinder faz é permitir que você identifique, contate e
possivelmente invada cada rede de computador no mundo.

Ele me leva até um de seus oito computadores e aperta várias teclas,
ativando o Blockfinder. Em menos de 30 segundos, o programa lista todas
as alocações de endereço de protocolo internet no mundo – provavelmente
lhe dando acesso a cada computador conectado à internet. Appelbaum
decide se concentrar em Burma, um pequeno país com um dos regimes mais
repressores do mundo. Digita o código de país de duas letras de Burma:
“mm”, para Mianmar. O Blockfinder instantaneamente começa a cuspir todo
endereço IP em Burma.

O Blockfinder informa a Appelbaum que há 12.284 endereços IP alocados em
Burma, todos eles distribuídos por provedores de internet controlados
pelo governo. Em Burma, como em muitos países fora dos Estados Unidos, o
acesso à internet passa pelo Estado. Appelbaum pressiona algumas teclas
e tenta se conectar a cada sistema de computação em Burma. Apenas 118
respondem. “Isso significa que praticamente todas as redes em Burma
estão bloqueadas para o mundo externo”, afirma. “Exceto 118 delas.”
Esses 118 sistemas de computação sem filtro só poderiam pertencer a
organizações e pessoas a quem o governo conceda acesso ilimitado à
internet: políticos de confiança, os mais altos escalões de empresas
estatais, agências de inteligência.

“Agora, esta”, diz Appelbaum, “é a parte boa”.

Ele seleciona uma das 118 redes aleatoriamente e tenta entrar nela. Uma
janela abre pedindo uma senha. Appelbaum joga a cabeça para trás e dá
uma risada alta – uma gargalhada alegre, quase maníaca. A rede roda em
um roteador Cisco Systems e está cheia de vulnerabilidades. Invadi-la
será trivial.

É impossível saber o que está do outro lado da senha. A conta de e-mail
pessoal do primeiro-ministro? O servidor de rede da polícia secreta? O
comando central da junta militar? Seja lá o que for, poderá estar logo
na ponta dos dedos de Appelbaum.

Ele fará isso?

“Eu poderia”, afirma Appelbaum com um sorriso. “Mas seria ilegal, não?”

Ninguém fez mais para espalhar o evangelho do anonimato do que
Appelbaum, cujo emprego normal é ser o rosto público do Tor Project, um
grupo que promove a privacidade na internet através de um programa de
software inventado há 15 anos pelo Laboratório de Pesquisa Naval dos
EUA. Ele viaja o mundo ensinando a espiões, dissidentes políticos e
ativistas de direitos humanos como usar o Tor para evitar que alguns dos
regimes mais repressores do mundo rastreiem seus movimentos online.
Acredita ser um absolutista da liberdade de expressão. “A única maneira
de progredirmos na raça humana é através do diálogo”, afirma. “Todos
deviam honrar a carta de direitos humanos da ONU que diz que o acesso à
liberdade de expressão é um direito universal. A comunicação anônima é
uma boa forma de isso acontecer. O Tor é só uma implementação que ajuda a
disseminar a ideia.”

Só no ano passado, foram realizados 36 milhões de downloads do Tor. Um
suspeito membro de alto escalão do exército iraniano utilizou o Tor para
vazar informações sobre o aparato de censura de Teerã. Um blogger
tunisiano exilado na Holanda usa o Tor para burlar a censura estatal.
Durante as Olimpíadas de Pequim, protestantes chineses usaram o Tor para
esconder sua identidade do governo.

O Tor Project recebeu financiamento não apenas de grandes corporações
como Google e grupos de ativistas como o Human Rights Watch, mas também
do exército norte-americano, que vê no Tor uma ferramenta importante
para o trabalho de inteligência. No entanto, o Pentágono não ficou
especialmente feliz quando o Tor foi usado para revelar seus segredos. O
WikiLeaks roda no Tor, o que ajuda a preservar o anonimato de seus
informantes. Embora Appelbaum seja funcionário do Tor, é voluntário do
WikiLeaks e trabalha em conjunto com Julian Assange, fundador do grupo.
“Não dá para subestimar a importância do Tor para o WikiLeaks”, afirma
Assange. “Jacob tem sido um promotor incansável nos bastidores de nossa
causa.”

Em julho, pouco antes de o WikiLeaks divulgar os documentos
confidenciais da guerra do Afeganistão, Assange deveria fazer a palestra
principal na Hackers on Planet Earth (HOPE), uma grande conferência
realizada em um hotel de Nova York. Agentes federais foram vistos na
plateia, presumidamente esperando Assange aparecer. Só que quando as
luzes se apagaram no auditório, não foi Assange quem subiu ao palco, mas
sim Appelbaum.

“Olá a todos os meus amigos e fãs em vigilância nacional e
internacional”, começou Appelbaum. “Estou aqui hoje porque acredito que
podemos fazer um mundo melhor. Infelizmente o Julian não pôde vir,
porque não vivemos nesse mundo melhor agora, ainda não chegamos lá.
Queria fazer uma pequena declaração aos agentes federais no fundo da
sala e para aqueles aqui na frente, e serei muito claro: eu tenho
comigo, no bolso, algum dinheiro, a Declaração dos Direitos e uma
carteira de motorista, e é só. Não tenho um sistema de computação, nem
telefone, chaves, nenhum acesso a coisa alguma. Não há motivo
absolutamente algum para me prender ou me incomodar, e caso vocês se
perguntem, sou um norte-americano, nascido e criado aqui, que está
descontente com como as coisas estão.” Fez uma pausa, interrompida por
aplausos ensurdecedores. “Citando Tron” acrescentou, “‘Luto pelo
usuário'”.

Nos 75 minutos seguintes, Appelbaum falou sobre o WikiLeaks, pedindo a
hackers na plateia para se juntarem à causa. Depois, as luzes se
apagaram e Appelbaum, com o capuz cobrindo o rosto, pareceu ser
escoltado para fora do auditório por um grupo de voluntários. Só que, no
lobby, o capuz foi retirado, revelando um rapaz que não era Appelbaum. O
verdadeiro Appelbaum havia fugido pelos bastidores e saído do hotel por
uma porta de segurança. Duas horas depois, estava em um voo para
Berlim.

Quando Appelbaum retornou aos EUA, 12 dias depois, e foi detido em
Newark, jornais noticiavam que os documentos de guerra identificavam
dezenas de informantes afegãos e possíveis desertores que estavam
cooperando com as tropas norte-americanas (quando perguntado por que o
WikiLeaks não revisou os documentos antes de divulgá-los, um porta-voz
da organização culpou o grande volume de informações: “Não consigo
imaginar alguém revisando 76.000 documentos”). Marc Thiessen, ex-redator
de discursos para o ex-presidente George W. Bush, chamou o grupo de
“uma empreitada criminosa” e implorou para o exército norte-americano
caçá-lo como a Al Qaeda. O congressista republicano Mike Rogers, de
Michigan, disse que o soldado que supostamente forneceu os documentos ao
WikiLeaks deveria ser executado.

Dois dias depois, após palestrar em uma conferência de hackers em Las
Vegas, Appelbaum foi abordado por alguns agentes do FBI disfarçados.
“Queremos conversar por uns minutinhos”, afirmou um deles. “Achamos que
você pudesse não querer, mas às vezes é bom ter uma conversa para
esclarecer tudo.”

Appelbaum está fora do radar desde então – evitando aeroportos, amigos,
estranhos e locais inseguros, viajando de carro pelo país. Passou os
últimos cinco anos de sua vida trabalhando para proteger ativistas no
mundo inteiro de governos repressores. Agora, está fugindo do governo de
seu próprio país.

A obsessão de Appelbaum pela privacidade pode ser explicada pelo fato de
que, na infância, ele não teve nenhuma. “Venho de uma família de
lunáticos”, conta. Seus pais, que nunca se casaram, iniciaram uma
batalha de custódia antes mesmo de ele nascer e que durou dez anos. Ele
passou os primeiros cinco anos de sua vida com a mãe, que diz ser uma
esquizofrênica paranoide. Ela insistia que Jake havia sido molestado de
alguma forma pelo pai quando ainda estava no útero. A tia conseguiu a
sua guarda quando ele tinha seis anos; dois anos depois, ela o deixou em
um lar infantil em Sonoma County. Foi ali, aos oito anos, que ele
invadiu sue primeiro sistema de segurança. Um garoto mais velho lhe
ensinou como conseguir o código PIN de um teclado de segurança: você o
limpa e, da próxima vez em que um segurança digitar o código, sopra pó
de giz no teclado e consegue as digitais. Uma noite, quando todos
estavam dormindo, os meninos desabilitaram o sistema e fugiram do lugar.
Não fizeram nada de especial – só andaram por uma quadra de softball do
outro lado da rua por meia hora – mas Appelbaum se lembra nitidamente
da noite: “Foi muito bom, por um momento, ser completamente livre”.

Quando tinha 10 anos, o tribunal lhe mandou ir morar com o pai, de quem
tinha se mantido próximo, mas logo o pai começou a usar heroína e
Appelbaum passou a adolescência viajando com ele pelo norte da
Califórnia de ônibus, morando em casas de grupos cristãos e abrigos para
sem-teto. Ocasionalmente, seu pai alugava uma casa e a transformava em
um esconderijo de heroína, sublocando cada quarto para amigos viciados.
Todas as colheres na cozinha tinham marcas de queimadura. Uma manhã,
quando Appelbaum foi escovar os dentes, encontrou uma mulher tendo
convulsões na banheira com uma seringa pendurada no braço. Em uma tarde,
ao voltar da escola, encontrou um bilhete de suicídio assinado pelo pai
(Appelbaum o salvou de uma overdose naquele dia, mas o pai morreu anos
depois em circunstâncias misteriosas). A situação chegou a um ponto de
ele não conseguir nem sentar no sofá com medo de ser furado por uma
agulha.

Um estranho na própria casa, Appelbaum adotou a cultura outsider.
Assombrava o shopping de Santa Rosa, pedindo trocados, vestia-se de drag
queen e com camisetas escritas “i love satan”, tingia o cabelo de roxo,
provocava brigas com cristãos fundamentalistas e dava amassos em
meninos na frente da escola (Appelbaum se identifica como “viado”,
embora mencione uma dezena de namoradas em vários países). Quando o pai
de um amigo estimulou seu interesse em computadores e lhe ensinou
ferramentas básicas de programação, algo se abriu para Appelbaum.
Programar e hackear lhe permitiram “sentir que o mundo não era um lugar
perdido. A internet é o único motivo para eu estar vivo hoje”.

Aos 20 anos, ele se mudou para Oakland e eventualmente começou a
fornecer segurança tecnológica para a Rainforest Action Network e o
Greenpeace. Em 2005, poucos meses após a morte do pai, viajou sozinho
para o Iraque – atravessando a fronteira a pé – e configurou conexões de
internet via satélite no Curdistão. Após o furacão Katrina, dirigiu até
Nova Orleans, utilizando documentos falsos de imprensa para passar pela
Guarda Nacional, e configurou hot spots sem fio em um dos bairros mais
pobres da cidade, para permitir que os refugiados se inscrevessem para
casas na FEMA [agência norte-americana de gerenciamento de emergências].

Ao voltar para casa, começou a experimentar com os cartões de tarifa
utilizados pelo sistema de trânsito Bay Area Rapid Transit e descobriu
que era possível fazer um cartão ter tarifa ilimitada. Em vez de tirar
proveito, alertou oficiais da BART sobre suas vulnerabilidades.
Entretanto, durante a conversa, Appelbaum descobriu que a BART
armazenava permanentemente as informações codificadas em cada cartão de
trânsito – número de cartão de crédito utilizado, onde e quando foi
passado – em um banco de dados privado. Ficou indignado. “Guardar essas
informações é uma irresponsabilidade”, afirma. “Pago impostos e não tive
escolha sobre como eles armazenam esses dados. Não é uma decisão
democrática, e sim uma diretriz burocrática.”

Por causa de suas preocupações com a privacidade, é fácil ver por que
Appelbaum foi atraído pelo Tor Project. Ele se voluntariou como
programador, mas logo ficou claro de que sua maior habilidade é o
proselitismo: ele projeta a mistura perfeita de entusiasmo e medo. “Jake
pode fazer uma defesa melhor do que a maioria”, conta Roger Dingledine,
um dos fundadores do Tor. “Ele diz: ‘Se alguém estivesse te procurando,
é isso o que faria’, e mostra para a pessoa. Ela fica apavorada.”

A internet, uma vez considerada uma força implacável de liberalização e
democratização, virou a ferramenta essencial para vigilância e
repressão. “Não dá para retratar informações depois que elas são
divulgadas”, diz Appelbaum, “e são necessárias pouquíssimas informações
para arruinar a vida de alguém”. Os perigos da web podem ser abstratos
para a maioria dos norte-americanos, mas para uma boa parte do mundo,
visitar websites restritos ou dizer algo polêmico em um e-mail pode
levar a prisão, tortura ou morte.

No ano passado, cerca de 60 governos proibiram seus cidadãos de acessar
livremente a internet. Há rumores de que a China tenha uma equipe de
mais de 30 mil censores que excluíram centenas de milhões de websites e
bloquearam uma gama excêntrica de termos – não apenas “Falun Gong” [grupo que partica atividades físicas e de metitação em busca do equilíbrio – e que é contra o Partido Comunista da China], “opressão” e “Tian’anmen” [referência à Praça da Paz Celestial], mas também “temperatura”, “quente”, “estudo” e “cenoura”.

Em uma tarde ensolarada em São Francisco, antes de o WikiLeaks dominar
as manchetes, Appelbaum está vestindo seu uniforme habitual de hacker:
botas pretas, meias pretas, calças pretas, óculos pretos de aro grosso e
uma camiseta com slogan (a de hoje é “fuck politics – i just want to
burn shit down” [“foda-se a política, quero queimar tudo”]).
Embora seu trabalho o faça ficar sentado na maior parte do dia, ele
raramente fica quieto. Frequentemente pula e executa uma série de
alongamentos acrobáticos rápidos. Levanta a perna contra a parede,
estala o pescoço violentamente, estica o braço sobre o peito e, da mesma
maneira repentina, senta novamente.

Explica que temos de tomar um táxi para pegarmos sua correspondência.
Como ao ser um vegano rígido ou um mórmon, uma vida de anonimato total
exige muito sacrifício. Você não pode, por exemplo, receber
correspondências em casa, nem listar seu nome na lista do edifício.
Todas as cartas para Appelbaum são enviadas para uma caixa postal
privada, onde um balconista as recebe. Isso permite que Appelbaum – e os
dissidentes e hackers com os quais lida – use o sistema postal
anonimamente. A Pessoa 1 pode enviar um pacote para Appelbaum, que pode
reembalá-lo e encaminhá-lo à Pessoa 2. Assim, a Pessoa 1 e a Pessoa 2
nunca têm contato direto – nem conhecem a identidade uma da outra.

O Tor funciona de maneira semelhante. Quando você usa a internet, seu
computador faz uma conexão com o servidor web que deseja contatar. O
servidor reconhece seu computador, anota seu endereço IP e envia a
página solicitada. No entanto, não é difícil para uma agência
governamental ou um hacker mal-intencionado observar toda essa
transação: eles conseguem monitorar o servidor e ver quem está
contatando, ou monitorar seu computador e ver quem você está tentando
contatar. O Tor evita essa espionagem online ao introduzir
intermediários entre seu computador e o sistema que está tentando
alcançar. Digamos, por exemplo, que você mora em São Francisco e quer
enviar um e-mail para um amigo, um militar de alto escalão da Guarda
Revolucionária Iraniana. Se enviar um e-mail diretamente para o amigo, a
rede da Guarda poderá facilmente ver o endereço IP do seu computador e
descobrir seu nome e informações pessoais. Mas se você instalou o Tor,
seu e-mail é roteado para um de 2.000 relays – computadores que rodam
Tor – espalhados pelo mundo. Então, sua mensagem vai para um relay em
Paris, que o encaminha para um segundo relay em Tóquio, que o envia para
um terceiro relay em Amsterdã, de onde é finalmente transmitido para
seu amigo em Teerã. A Guarda Iraniana só pode ver que um e-mail foi
enviado de Amsterdam. Qualquer pessoa que espia seu computador só veria
que você enviou um e-mail para alguém em Paris. Não há conexão direta
entre São Francisco e Teerã. O conteúdo de seu e-mail não está oculto –
para isso, é necessária tecnologia de criptografia – mas sua localidade
está segura.

Appelbaum passa uma boa parte do ano comandando sessões de treinamento
do Tor em todo o mundo, frequentemente realizadas em segredo para
proteger ativistas sob risco de morte. Alguns, como os defensores de
prostitutas do Sudeste Asiático que ensinou, tinham conhecimento
limitado em computadores. Outros, como um grupo de estudantes que
Appelbaum treinou em um seminário no Qatar, são altamente sofisticados:
um trabalho na rede de censura do governo, outro trabalha para uma
petroleira nacional, e um terceiro criou um painel de mensagens da
Al-Jazeera que permite que os cidadãos façam comentários anonimamente.
Na Mauritânia, o regime militar do país foi forçado a abandonar seus
esforços para censurar a internet depois que um dissidente, Nasser
Weddady, escreveu um guia para o Tor em árabe e o distribuiu a grupos de
oposição. “O Tor fez com que os esforços do governo fossem
completamente fúteis”, afirma Weddady. “Eles simplesmente não tinham o
know-how para combater isso.”

Ao distribuir o Tor, Appelbaum não diferencia os mocinhos dos vilões.
“Não sei a diferença entre uma teocracia e outra no Irã”, diz. “O
importante para mim é que as pessoas tenham comunicação livre de
vigilância. O Tor não deveria ser considerado subversivo, mas sim uma
necessidade. Qualquer pessoa em qualquer lugar deveria poder falar, ler e
formar suas próprias crenças sem ser monitorada. As coisas tinham de
chegar a um ponto no qual o Tor não é uma ameaça, e sim utilizado por
todos os níveis da sociedade. Quando isso acontecer, venceremos.”

Como o rosto público de uma organização dedicada ao anonimato, Appelbaum
se vê em uma posição instável. É do interesse do Tor obter o máximo
possível de publicidade – quanto mais pessoas permitirem que seus
computadores sirvam de relay, melhor. Mas ele também vive em um estado
de vigilância constante, preocupado que seus inimigos – hackers
invejosos, regimes estrangeiros repressores, o próprio governo – estejam
tentando atacá-lo. Sua concessão é utilizar um sistema de duas camadas.
Ele mantém uma conta no Twitter e publicou milhares de fotos no Flickr,
mas toma medidas amplas para evitar o aparecimento de qualquer
informação privada – números de telefone, endereços de e-mail, fotos de
amigos.

“Há graus de privacidade”, afirma. “O normal hoje em dia é denunciar
conspicuamente outra pessoa de uma maneira que nem a Stasi poderia
imaginar. Não faço isso. Não digito meu endereço residencial em
computador algum. Pago o aluguel em dinheiro. Para cada conta online,
gero senhas aleatórias e crio novos endereços de e-mail. Nunca dou
cheques, porque eles são inseguros – seus números de encaminhamento e de
conta são o que basta para esvaziar sua conta bancária. Não entendo por
que as pessoas ainda usam cheques. É uma loucura.”

Quando viaja, se o laptop fica fora de vista por qualquer período de
tempo, ele o destrói e joga fora; a preocupação é que alguém possa tê-lo
infectado. Frequentemente é levado a medidas extremas para fazer cópias
do Tor passarem pela alfândega em países estrangeiros. “Estudei como as
‘mulas’ que transportam drogas fazem”, conta. “Quero derrotá-los no
próprio jogo.” Ele me mostra uma moeda de cinco centavos e a joga no
chão do apartamento. Ela se abre e, dentro, há um minúsculo cartão de
memória Micro SD de oito gigabytes, que contém uma cópia do Tor.

Embora o Tor tenha crescido rapidamente, a vigilância do governo na
internet se expandiu com rapidez ainda maior. “É inacreditável quanto
poder uma pessoa tem se recebe acesso irrestrito aos bancos de dados do
Google”, afirma Applebaum.

Como rapidamente observa, os regimes opressores estrangeiros são apenas
parte do problema. Nos últimos anos, o governo dos EUA está
silenciosamente acumulando bibliotecas de dados sobre os próprios
cidadãos. A polícia pode intimar seu provedor de internet a dar seu
nome, endereço e registros telefônicos. Com um mandado de Justiça, pode
solicitar o endereço de e-mail de qualquer pessoa com quem você se
comunique e os websites que visita. Seu provedor de telefonia móvel pode
rastrear sua localização o tempo todo. “Não é só o Estado”, diz
Appelbaum. “Se quisesse, o Google poderia acabar com qualquer país. O
Google tem sujeira suficiente para destruir qualquer casamento nos
Estados Unidos.”

Mas o Google não fornece fundos para o Tor?

“Amo o Google”, afirma. “E amo as pessoas lá, Sergey Brin e Larry Page
são legais, mas estou apavorado com a próxima geração que assumir. Uma
ditadura benevolente ainda é uma ditadura. Em algum momento, as pessoas
perceberão que o Google tem tudo sobre todos, e principalmente pode ver
as perguntas sendo feitas, em tempo real. Ele pode literalmente ler sua
mente.”

Agora, com a controvérsia do WikiLeaks, Appelbaum desapareceu,
escondendo seu paradeiro até dos melhores amigos. Ele suspeita que seus
telefones estão grampeados e que está sendo seguido. Uma semana depois
de ser interrogado em Newark, ele me liga de um lugar anônimo, depois de
meu pedido de contato ter sido passado a ele por uma série de
intermediários. Percebe a ironia da situação.

“Usarei o Tor muito mais do que antes – e já usei muito”, diz, com a voz
incaracteristicamente sóbria. “Virei uma das pessoas que passei os
últimos anos da minha vida protegendo. É melhor eu aceitar meu próprio
conselho.”

Tradução: Lígia Fonseca

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Um comentários

  1. Alguem feliz em Cristo

    Tor Project nada mais é que um programa financiado pelas grandes corporações para espionar o que as pessoas que querem estar anonimas tem tanto a esconder. abram os olhos, pois programas deste tipo dado de graça assim e nenhum governo luta para bloqueá-lo? Espera que a credito em papai noel. Assim como o Wikileaks nunca vai realmente mostrar documentos que iriam fazer uma revolução no mundo. Wikileaks outra mentira. Assim como aquele grupo Luzz e Anonimus? Na boa irmao. Procura por si só. Esses nada mais sao produtos ou argumentos implantados para futuramente usarem para controle absoluto da internet. Abs e veja se leia mais e para de acreditar em bobagem. Como está dito na bíblia: OS LOBOS estão todos vestidos de ovelha. Bíblia Sagrada João 8:32. Mas valeu pela intenção, também queria que tudo isso fosse verdade. Abs e que Deus ti abençoe cara. 😉

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