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Mitos sobre Martin Luther King

F  r  a  u  d  e 

MarcusEpsteinLewRockwell, 18 de janeiro de 2003
Tradução e links*: DEXTRA
Provavelmente não há uma vaca
mais sagrada nos Estados Unidos do que Martin Luther King Jr. A mais
leve crítica a ele ou mesmo a sugestão de que ele não merece um feriado
nacional levam a acusações de racismo, fascismo e todo o resto dos
insultos costumeiros da esquerda, não só dos esquerdistas, mas também de
muita gente ostensivamente conservadora e libertária.
Isto é espantoso, porque durante
os anos 50 e 60, a Direita se opunha quase que unanimamente ao
movimento por direitos civis. Ao contrário do que afirmam muitos
neoconservadores, a oposição não se limitou à Sociedade John Birch e aos conservadores sulistas. Ela foi feita por políticos comoRonald Reagan* e Barry Goldwater e nas páginas da Modern AgeHuman EventsNational Review, e da Freeman.
Hoje, os movimentos conservador e
libertário oficiais retratam King como alguém do nosso lado, que
estaria combatendo Jesse Jackson e Al Sharpton se estivesse vivo. A
maioria das publicações e sites conservadores trazem artigos,
nesta época do ano, louvando King e discutindo como os líderes dos
direitos civis de hoje estão traíndo seu legado. The Triumph of Liberty [O
triunfo da liberdade], de Jim Powell (que, exceto por isto, é
excelente), coloca King próximo a Ludwig von Mises e Albert J. Nock como
um herói libertário. Quem for a qualquer seminário do Instituto para
Assuntos Humanos lerá Uma carta desde a cadeia de Birmingham como uma grande peça de sabedoria anti-racista. A  Heritage Foundation tem palestras e simpósios regulares em honra a seu legado. Há quase meia dúzia de think tanks e
fundações legais com nomes como “Centro para Oportunidades Iguais” e
“Instituto Americano de Direitos Civis”, que afirmam ter King como
modelo.
Como é que um homem que um dia
foi malhado pela Direita hoje é celebrado como seu herói? A resposta
parcial está no fato de que a Direita mainstreammoveu-se
gradualmente para a esquerda desde a morte de King. O influxo de muitos
intelectuais neoconservadores, muitos dos quais estiveram envolvidos no
movimento por direitos civis, para o movimento conservador, também
contribui para o fenômeno de King. Isto não explica todo o quadro,
porque, em muitos assuntos, King estava muito à esquerda até dos
neoconservadores e muitos admiradores de King até aderem a princípios
como liberdade de associação e federalismo. A principal razão é que eles
criaram um Martin Luther King Jr. que construíram todo a partir de
apenas uma linha do discurso de “Eu tenho um sonho”.
Neste artigo, tentarei desfazer
os maiores mitos nos quais o movimento conservador incorre a respeito de
King. Encontrei muitas das informações para este artigo em I May Not Get There With You: The True Martin Luther King [Talvez eu não chegue lá com vocês: o verdadeiro Martin Luther King], do esquerdista negro Michael Eric Dyson*.
Dyson mostra que King apoiava o poder negro, reparações, ação
afirmativa e o socialismo. Ele acredita que isto torna King ainda mais
admirável. Ele também trata com franqueza de sua promiscuidade e
plagiarismo, embora o desculpe. Se você não se importar em ler suas
longas discussões sobre o gangsta rap* e coisas do gênero, eu recomendo vivamente este livro.
Mito # 1: King só queria
direitos iguais, não privilégios especiais, e teria se oposto à ação
afirmativa, quotas, reparações e as outras políticas promovidas pela
liderança dos direitos civis de hoje.
Este é provavelmente o mito mais repetido sobre King. Escrevendo naNational Review Online, Matthew Spalding, da There Heritage Foundation, publicou um artigo chamado A mente conservadora de Martin Luther King,
onde ele afirma: “Uma agenda que advogue quotas, contagens raciais e
preferências raciais em contratos do governo nos afastam da visão de
King.”
O problema com esta opinião é
que King advogava abertamente quotas e preferências raciais em contratos
do governo. Ele escreveu que o “negro hoje não está lutando por
direitos abstratos e vagos, mas pela melhoria concreta em seu modo de
vida.” Quando as leis de oportunidaded iguais não conseguiram realizar
isto, King buscou outros meios. Em seu livro Where Do We Go From Here [Para
onde vamos, a partir daqui], ele sugeriu que “Uma sociedade que fez
algo de particular contra o negro durante centenas de anos deve agora
fazer algo de particular por ele, para prepará-lo para competir em pé de
igualdade.” Para fazer isto, ele expressou apoio por quotas. Em uma
entrevista de 1968 à Playboy, ele disse: “Se uma cidade tem uma
população de 30% de negros, então é lógico supor que os negros deveriam
ter pelo menos 30% dos empregos em qualquer companhia em particular e
empregos em todas as categorias, ao invés de apenas em atividades
humildes.” E King falava sério quando disse isto. Atuando por meio de
sua Operação Celeiro, King ameaçou boicotar as empresas que não
contratassem negros em proporção a sua população.
King foi até um dos primeiros a propor reparações. Em seu livro de 1964,  Why We Can’t Wait [Por que não podeos esperar], ele diz::
Nenhuma
quantidade de ouro poderia servir como compensação adequada à
exploração e humilhação do negro na América ao longo dos
séculos… Entretanto, pode-se fixar um preço por salários não-pagos. O
antigo direito comum sempre ofereceu um remediamento pela apropriação do
trabalho de um ser humano por outro. Dever-se-ia fazer este direito se
aplicar aos negros americanos. O pagamento deveria ser feito na forma de
programas maciços do governo, envolvendo medidas especiais e
compensatórias, que seriam consideradas como um acordo em concordância
com a prática aceita do direito comum.
Prevendo
que os críticos observariam que muitos brancos eram igualmente
desamparados, King afirmou que seu programa, que ele chamou de “A Carta
de Direitos dos Deamparados”, também ajudaria os brancos pobres. Isto
porque, quando os negros pobres recebessem reparações, os brancos pobres
perceberiam que seus verdadeiros inimigos eram os brancos ricos.
Mito
# 2: King foi um patriota americano, que tentou fazer os americanos
corresponderem às expectativas de seus ideais fundadores.
Na National Review, Roger Clegg escreveu que
“Talvez tenha havido um breve momento no qual houve algo como um
consenso nacional — uma visão eloquentemente articulada no discurso “Eu
tenho um sonho”, de Martin Luther King, com profundas raízes no Credo
Americano, quintessenciado em nosso lema nacional E pluribus unum.
A maioria dos americanos ainda o compartilha; mas nem todos,
absolutamente.” Muitos outros conservadores adotaram esta idéia de um
Credo Americano que foi fortalecido por Jefferson e Lincoln e depois
consumado por King, libertários como Clint Bolick e neoconservadores
como Bill Bennet.
Apesar de suas constantes
invocações à Declaração de Independência, King não tinham lá muito
orgulho da fundação da América. Ele acreditava que “nossa nação nasceu
pelo genocídio” e afirmou que a Declaração de Independência e a
Constituição não significavam nada para os negros, porque elas foram
escritas por proprietários de escravos.
Mito # 3 : King era um ativista cristão, cuja luta por direitos civis é semelhante às batalhas lutadas pela Direita Cristã hoje.
Ralph Reed afirma que “o gênio
indispensável de King” trouxe “a visão e a liderança que renovaram e
tornaram cristalinas a conexão vital entre religião e política.”  Ele
admitiu com orgulho que a Coalizão Cristã “adotou muitos elementos do
estilo e táticas de King.” O grupo pró-vida Operação Resgate muitas
vezes comparou sua luta contra o aborto com a luta de King contra a
segregação. Em um discurso entitulado “As virtudes conservadoras do Dr.
Martin Luther King”, Bill Bennet descreveu King como  “antes de tudo, não um ativista social, mas sim um ministro da Fé Cristã, cuja fé informou e dirigiu suas crenças.”
Tanto as posições públicas
quanto o comportamento pessoal de de King tornam discutível a comparação
entre ele e a Direita Religiosa.
A vigilância do FBI mostrou
que King teve dezenas de casos extra-conjugais. Embora muitos dos
documentos pertinentes estejam lacrados, muitos agentes que o vigiaram
observaram-no em muitos atos questionáveis, incluindo o agenciamento de
prostitutas com dinheiro da Conferência da Liderança Cristã do
Sul. Ralph Abernathy, que King chamou de “o melhor amigo que eu tenho no
mundo,” corroborou muitas destas acusações em sua autobiografia And the Walls Came Tumbling Down [E
ruíram-se as mulhas]. É verdade que a vida privada de um homem é
sobretudo um assunto seu. Entretanto, a maioria dos conservadores
condenou com veemência Jesse Jackson quando surgiu a notícia de seu
filho ilegítimo e afirmaram que ele não estava qualificado para ser
pastor.
King também assumiu posições com
as quais a maioria na Direita Cristã descordariam. Quando indagado
sobre a decisão da Suprema Corte de proibir a oração nas escolas, King
respondeu:
Eu endosso. Acho que foi
correto. Ao contrário do que muito possam ter dito, ela não procurou
ilegalizar nem a oração nem a crença em Deus. Em uma sociedade
pluralista como a nossa, quem é que pode determinar que oração será dita
e por quem? Legalmente, constitucionalmente e como quer que seja, o
estado certamente não tem este direito
.
Embora King tenha morrido antes da decisão do caso Roe vs. Wade e, até onde sei, não tenha feito comentários sobre o aborto, ele foi um apoiador fervoroso da Planned Parenthood*. Ele até ganhou seu prêmio Margaret Sanger*, em 1966, e fez sua esposa dar um discurso intitulado Planejamento familiar — Uma preocupação particular e urgente,
que ele escreveu. No discurso, ele não comparou o movimento por
direitos civis à luta dos cristãos conservadores, mas disse, sim, que
“há uma impressionante semelhança entre nosso movimento e os primeiros
esforços de Margaret Sanger*”
Mito # 4: King era um anti-comunista.
Em um outro artigo sobre Martin Luther King, Roger Clegg, da National Review, cumprimenta King
por denunciar a “opressão do comunismo”! Para ganhar o apoio de muitos
brancos esquerdistas nos primeiros anos, King de fato fez algumas leves
denúncias do comunismo. Ele também afirmou, em uma entrevista de 1965 à Playboy, que
“há tantos comunistas neste movimento quanto há esquimós na Flórida.”
Esta foi uma mentira deslavada. Embora King nunca tenha sido um
comunista e tenha sempre sido um crítico da União Soviética, ele havia se cercado conscientemente
de comunistas. Seu conselheiro mais próximo, Stanley Levison, era um
comunista, assim como seu assistente Jack O’Dell. Robert e depois John
F. Kennedy repetidas vezes o admoestaram a que parasse de se associar 
com subversivos como estes, mas ele nunca fez isto. Ele frequentemente
falava para grupos de fachada para comunistas, como a Guilda dos
Advogados Nacionais e os Advogados pela Ação Democrática. King até
participou de seminários na EscolaHighlander Folk, que ensinava táticas comunistas, que mais tarde ele empregou.
A oposição de King ao comunismo
bem pode ter contribuído para sua oposição à Guerra do Vietnam, que ele
caracterizou como uma guerra racista, imperialista e injusta. King
afirmou que os Estados Unidos “tinham cometido mais crimes de guerra do
que qualquer nação no mundo.” Embora reconhecesse que a Frente de Libertação Nacional* “pudesse não ser um paradigma de virtude”,  ele nunca os criticou. Entretanto, ele era bastante duro com Diem* e o Sul. Ele negava que a FLN fosse comunista e acreditava que Ho Chi Minh*
deveria ser o governante legítimo do Vietnam. Como um globalista
engajado, ele acreditava que “nossas lealdades devem transcender nossa
raça, nossa tribo, nossa classe, nossa nação. Isto significa que devemos
desenvolver uma perspectiva global.”
Muitos
admiradores conservadores de King não têm nenhum problema em chamarem
qualquer um que questione a política externa americana de um “agente da
quinta coluna.” Embora eu pessoalmente concorde com King em algumas de
suas posições sobre o Vietnam, é hipocrisia dos que ainda estão tentando
processar Jane Fonda por sedição aplaudirem ele.
Myth # 5: King apoiava o livre-mercado.
Eu sei: não se costuma ouvir muito isto, mas acontece. Por exemplo, o Padre Robert A. Sírico submeteu um artigo ao Acton Institute intitulado Direitos civis e cooperação social. Lá, ele escreveu:
Uma economia mais livre nos
levaria para mais perto dos ideais dos pioneiros do movimento por
direitos civis deste país. Martin Luther King, Jr. reconheceu isto,
quando escreveu: “Com o incremento das atividades econômicas, o modo de
vida dos brancos vai desaparecer,” e ele previu que tal crescimento
“aumentaria o poder de compra do negro [, o qual, por sua vez] resultaria em uma melhoria do serviço de saúde, maiores oportunidades
educacionais e melhor moradia. Todos estes acontecimentos resultarão em
um enfraquecimento ainda maior da segregação.”
King, é claro, era um grande oponente da economia livre. Em um discurso para seu pessoal, em 1966, ele disse:
Não
se pode falar em resolver o problema econômico do negro sem se falar em
bilhões de dólares. Não se pode falar de acabar com as favelas sem
primeiro dizer que deve-se lucrar com as favelas. Aí se está mexendo com
com algo realmente delicado e pisando em um terreno perigoso, porque aí
se está criando problemas com a comunidade. Está se criando problemas
com os chefes da economia… Agora, isto significa que estamos águas
difíceis, porque isto significa mesmo que estamos dizendo que algo está
errado… com o capitalismo… Deve haver uma melhor distribuição da
riqueza e talvez os Estados Unidos devam ir na diração de um socialismo
democrático.
King pregava a “total
reconstrução do sistema”, de um modo que não fosse nem capitalista nem
“a antítese do comunismo.” Para maiores informações sobre as opiniões
econômicas de King, veja A Economia de Martin Luther King Jr., no LewRockwell.
Mito #  6: King era um conservador.
Como todos os mitos anteriores
mostram, as opiniões de King dificilmente seriam conservadoras. Como se
não bastasse, vale a pena observar que o que King disse sobre os dois
mais proemintes políticos conservadores americanos do pós-guerra, Ronald Reagan* e Barry Goldwater*.
King acusou Barry Goldwater de “Hitlerismo.” Ele acreditava que Goldwater
advogava um “nacionalismo estreito, um isolacionismo paralisante e uma
atitude de confrontação.” Nas questões domésticas, ele sentia que o “Sr.
Goldwater representava um conservadorismo irrealista que estava
totalmente fora de contato com as realidades do século vinte.” King
disse que as posições de Goldwater sobre os direitos civis eram
“moralmente indefensáveis e socialmente suicidas.”
Sobre Reagan, King disse:
“Quando um artista de Hollywood, que não tem atrativos sequer como ator,
consegue se tornar um destacado candidato do tipo falcão de guerra para
a presidência, só as irracionalidades induzidas pela psicose de guerra
podem explicar um tal curso dos eventos.”
Apesar das duras críticas de
King a estes homens, ambos apoiaram o feriado de King. Goldwater
inclusive lutou para manter os arquivos do FBI, que continham
informações sobre sua vida sexual adúltera e suas ligações comunistas,
lacrados.
Mito # 7 : King não foi um plagiário.
Eu sei: nem mesmo o grosso
dos neocons não vai negar isto, mas ainda assim eu acho que vale a pena
levantar a questão, porque eles todos a ignoram. King começou a plagiar
quando ainda estava na graduação. Quando a Universidade de Boston fundou
uma comissão para investigar o assunto, eles descobriram que 45 por
cento da primeira parte e 21 por cento da segunda parte de sua tese era
roubada, mas  insistiram que “não se deveria nem pensar em impugnar o
título de doutorado do Dr. King.” Além de sua tese, muitos de seus
maiores discursos foram plagiados, como foram muitos de seus livros e
escritos. Para mais informações sobre o plagiarismo de King, A Página do Plagiarismo de Martin Luther King e Plagiarismo e a Guerra Cultural, de Theodore Pappas, são excelentes recursos.
Quando confrontados com estes
fatos, a maioria dos fãs conservadores e libertários de King ou diz que
eles não fazim parte de sua principal filosofia ou, normalmente, eles
simplesmente os ignoram. Pouco antes de o feriado de King ter sido
oficialmente criado, o governador Meldrim Thompson, de New Hampshire,
escreveu uma cara a Ronald Reagan, expressando preocupações em relação à
moralidade de King e suas ligações comunistas. Ronald Reagan respondeu:
“Eu tenho as mesmas reservas que você, mas a percepção de muitíssimas
pessoas está baseada em uma imagem, não na realidade. Na verdade, para
elas, a percepção é a realidade.”
Muitíssimos na Direita estão
idolatrando esta percepção. Ao invés de encararem a realidade a respeito
das opiniões de King, eles criam um homem baseado em umas poucas linhas
que falam sobre julgar os homens “pelo conteúdo de seu caráter, não
pela cor de sua pele” — algo que não devemos fazer em seu caso, claro
— ao mesmo tempo em que ignoram todo o mais que ele disse e fez. Se
King é de fato uma figura admirável, eles prestam um desserviço a seu
legado, ao usarem seu nome para promover uma agenda que ele claramente
não teria apoiado.

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